Um dia depois de Volta Redonda eleger três deputados estaduais – Munir Neto (Solidariedade), Jari Oliveira (PSB) e Raone Ferreira (PT) –, a Câmara Municipal foi palco de uma série de cobranças de vereadores da base do prefeito Neto (PP) a integrantes do primeiro escalão do governo. As reclamações envolveram falta de atendimento, demora nas respostas a demandas e, em alguns casos, críticas à forma como secretários estariam tratando vereadores e moradores.
O episódio que concentrou a maior parte dos discursos foi protagonizado pelo presidente da Câmara, Neném (PP), que criticou duramente Ricardo Ballarini, responsável pelo Banco da Cidadania. A partir dali, outros vereadores ampliaram as cobranças e defenderam que secretários sejam chamados ao plenário para prestar esclarecimentos.
“Trata essa Casa com respeito”
Neném afirmou que a relação entre alguns integrantes do governo e a Câmara precisa mudar. “Trata essa Casa com respeito”, disse o presidente, durante a sessão.
Em outro momento, ao falar sobre problemas em escolas e demandas que, segundo ele, permanecem sem solução, Neném cobrou que os secretários deixem os gabinetes e acompanhem de perto as situações apontadas pelos vereadores.
“Tem que levantar a bunda da cadeira, ir lá e ver o que está acontecendo”, afirmou. O vereador citou escolas que, segundo ele, ainda enfrentam problemas de estrutura, como falta de ar-condicionado e até de pia, e fez elogios ao trabalho de diretores que, em sua avaliação, procuram resolver as dificuldades apesar das limitações.
Neném também reclamou de um processo que, segundo ele, teria passado por diferentes setores da Prefeitura durante cerca de cinco meses antes de terminar indeferido.
A Ilha São João e a cobrança sobre Ballarini
A crítica mais contundente de Neném foi dirigida a Ricardo Ballarini. O vereador relatou que um amigo precisava fazer imagens de veículos na Ilha São João e que tentou obter autorização para a gravação.
Segundo Neném, depois de diversas ligações, ele conseguiu falar com o presidente do Banco da Cidadania horas mais tarde. O vereador afirmou que Ballarini teria apresentado dificuldades para autorizar a entrada e, posteriormente, orientado que a questão fosse tratada com uma pessoa que havia alugado o espaço.
Neném disse que o amigo acabou conseguindo fazer a gravação, que teria durado cerca de 20 minutos. Mais tarde, segundo o vereador, Ballarini teria ligado para o amigo e informado que a polícia poderia ser acionada.
“Que ele [Ballarini] me hostilizasse, tudo bem. Mas ele pôs meu amigo como bandido”, afirmou Neném.
O presidente da Câmara questionou ainda as condições de utilização da Ilha São João e pediu informações sobre eventuais contratos de locação, valores cobrados e recolhimento de impostos.
“Eu não sei como pode estar esse patrimônio público na mão de estranho”, disse.
Neném também afirmou que quer informações sobre contratos e locações do espaço nos últimos dois anos.
“Pra um ele [Ballarini] aluga do jeito, pra outro ele trata igual cachorro”, afirmou.
O vereador avisou que pretende continuar levando o assunto à tribuna. “Se ele [Ballarini] continuar dessa forma, vou vir todo dia na tribuna”, disse Neném, que pediu aos demais vereadores apoio para um requerimento de convocação.
“É gravíssimo”
O vereador Edson Quinto (PL) defendeu que Ballarini seja chamado ao plenário para responder às reclamações. “É gravíssimo o senhor [vereador Neném] estar trazendo isso para esta Casa”, afirmou.
Quinto disse que, se for apresentado um requerimento de convocação, contará com seu voto e sua assinatura. “Se o senhor fizer um requerimento convocando ele [Ballarini] para vir amanhã ou depois, pode contar com o meu voto e a minha assinatura”, afirmou.
Para Quinto, um pedido de informações pode prolongar a discussão sem produzir uma resposta rápida. Segundo ele, há requerimentos que levam 30 dias para serem respondidos e ainda podem ganhar mais um mês de prazo. Nesse intervalo, avaliou, a discussão pode esfriar e terminar com pedidos de desculpas e apertos de mão.
O vereador defendeu que Ballarini seja ouvido diretamente no plenário, com a presença das pessoas que, segundo os relatos apresentados na sessão, teriam sido prejudicadas.
“Trazer aqui para o plenário e convidar essas pessoas que foram prejudicadas para vir aqui assistir a esse debate”, disse.
“O terror dos boxes”
Sidney Dinho (PP) também defendeu a convocação de Ballarini. Para ele, não seria necessário começar por um simples pedido de informações.
“Se fosse eu, não perderia tempo de pedir informação. Já faria um requerimento de convocação, pedindo para que ele [Ballarini] traga as explicações e explique aqui no tête-à-tête”, afirmou.
O vereador chamou Ballarini de “o terror das pessoas que têm boxes nos mercados populares de Volta Redonda”. Segundo Sidney Dinho, comerciantes estariam sendo pressionados por dívidas e ameaçados de perder os boxes.
O parlamentar afirmou ainda que algumas pessoas estariam sendo “massacradas psicologicamente”. As afirmações foram feitas durante a sessão e não foram acompanhadas, naquele momento, de documentos apresentados publicamente.
Dinho ampliou a crítica e disse que o problema não se limita ao Banco da Cidadania. “Não podemos generalizar. Tem uns [secretários] que só precisa mandar uma mensagem e resolve o problema. Mas tem alguns aí que parece é que são o prefeito da secretaria que eles estão lá”, afirmou.
O vereador defendeu que uma eventual convocação também trate de contratos, pagamentos, aluguéis e licitações relacionados ao Banco da Cidadania.
Líder do governo admite problema
Líder do governo na Câmara, Luciano Mineirinho (PP) reconheceu que existem reclamações sobre o atendimento de alguns secretários. “Essas denúncias são gravíssimas. Quem paga os impostos é a população. A população não pode ser maltratada”, observou.
Mineirinho disse que chegou a fazer testes para verificar como estavam sendo atendidas demandas encaminhadas por vereadores. “Não é todos, senhor presidente, é um ou outro, mas não está atendendo. Quando atende, demora”, declarou.
O líder do governo afirmou que levará as reclamações diretamente ao prefeito. “Essa semana eu vou sentar com o prefeito, passar isso tudo e espero que ele tome algumas atitudes”, disse.
O parlamentar relatou ainda ter procurado Neto anteriormente após uma reclamação envolvendo o atendimento em uma unidade de saúde. Segundo ele, depois da conversa com o prefeito, a responsável pelo local foi substituída.
Barenco também entra na mira
As críticas não ficaram restritas ao Banco da Cidadania. Paulinho do Raio-X (Republicanos) direcionou sua cobrança ao secretário municipal de Transporte e Mobilidade Urbana, Paulo Barenco. O vereador afirmou que o titular da pasta já deveria ter sido chamado pela Câmara.
“Esse secretário daí, da SMTU, já deveria ter sido convidado por essa Casa aqui”, afirmou.
Paulinho disse que Barenco não estaria respondendo às demandas encaminhadas pelos vereadores. “Ele fica muito no escritório dele e não atende”, reclamou.
Segundo o vereador, existem mais de 40 indicações de sua autoria relacionadas a necessidades da população que, até aquele momento, permaneciam sem resposta. “A cidade está de joelhos para ele [Barenco]. E a gente não toma uma providência aqui”, afirmou.
Paulinho disse ainda ter conversado com Mineirinho sobre o assunto e afirmou que o líder do governo reconheceu a dificuldade de relacionamento com o secretário.
Educação também é alvo de reclamação
Marquinho Motorista (Pode) levou a mesma queixa para a área da Educação. Segundo ele, tentou contato com o secretário Osvaldir Denadai e não recebeu retorno.
“Eu liguei para o secretário de Educação, senhor presidente. Eles não retornam”, discursou.
O vereador lembrou que os parlamentares foram eleitos para representar a população e cobrou uma mudança na relação com os secretários. “Nós fomos eleitos pelo povo para a gente representar o povo”, disse.
Convocação em vez de pedido de informação
Renan Cury (PP) também defendeu que a Câmara adote uma postura mais firme diante de reclamações contra integrantes do governo. “Quando qualquer secretário, qualquer funcionário público não atender uma demanda de um vereador, que não esteja na alçada dele, ou então que trate mal uma pessoa, qualquer pessoa da população, trate mal qualquer vereador, a gente tem que convocar aqui e acabou, sem meias palavras”, afirmou.
Para Renan, a convocação permite que o responsável apresente suas explicações diretamente aos vereadores. “Então convoca, responde aqui e, se houve algum ato errado, ele que responda perante isso”, declarou.
A avaliação de parte dos vereadores é que um requerimento de informações pode levar semanas para ser respondido, enquanto uma convocação colocaria o secretário diante do plenário em prazo mais curto.
Desgaste na relação
As manifestações de segunda-feira deixaram exposta uma insatisfação que ultrapassa o caso envolvendo o Banco da Cidadania. Vereadores da base de Neto reclamaram de secretários de diferentes áreas, questionaram a demora no atendimento e defenderam que o prefeito intervenha na relação entre o Executivo e a Câmara.
A cobrança ganhou força justamente no dia seguinte à eleição que colocou três nomes com forte atuação política em Volta Redonda na Assembleia Legislativa: Munir Neto, Jari Oliveira e Raone Ferreira.
Na Câmara, porém, o recado foi direto: vereadores querem respostas mais rápidas do governo e cobram uma relação diferente com os secretários. O líder do governo reconheceu as reclamações e disse que pretende levá-las ao prefeito Neto.












































