O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) informou à Folha do Aço que abrirá uma sindicância para apurar as circunstâncias da morte da influenciadora digital Marta Kelly de Oliveira Silva, de 33 anos, após um procedimento cirúrgico realizado em Volta Redonda.
Em nota enviada à reportagem, o Conselho afirmou que tomou conhecimento do caso por meio da imprensa e que irá apurar os fatos relacionados ao procedimento que antecedeu o óbito.
A abertura da sindicância ocorre em meio à repercussão nacional do caso e aos questionamentos que passaram a circular nas redes sociais sobre uma possível relação entre o procedimento realizado por Marta e as complicações que levaram à sua internação e, posteriormente, à morte. Até o momento, porém, não há conclusão oficial de que tenha ocorrido erro médico ou de que o procedimento tenha sido a causa do óbito.
Marta Kelly morreu na noite de segunda-feira (dia 17), em Volta Redonda. Ela estava internada desde a sexta-feira (dia 14), em um hospital particular da cidade. Segundo as informações divulgadas até agora, a influenciadora havia sido submetida a um procedimento cirúrgico no dia 12 de agosto e recebeu alta no dia seguinte. Posteriormente, apresentou complicações e precisou retornar ao hospital.
A causa exata da morte não foi divulgada oficialmente.
Advogados dizem que família aguarda documentos médicos
Em novo posicionamento divulgado na tarde de quinta-feira (dia 20), os advogados que representam Marcus Vinicius, marido de Marta Kelly, afirmaram que a família está reunindo a documentação médica necessária para esclarecer as circunstâncias da morte da influenciadora.
Em vídeo, Raphael de Andrade Naves e Carlos Barbosa Ribeiro, do escritório Naves e Ribeiro Advogados Associados, agradeceram as manifestações de solidariedade recebidas pela família, mas criticaram a disseminação de especulações e a exposição de imagens relacionadas a Marta e aos três filhos do casal.
Segundo os advogados, foram identificados conteúdos com uso não autorizado de fotos e vídeos, além de vídeos manipulados por inteligência artificial. A defesa também criticou o que classificou como “exploração indevida da imagem de três crianças menores para gerar engajamento nos perfis dos mais variados nichos”.
Os advogados afirmaram que Marcus Vinicius está dedicado aos cuidados dos três filhos, que, segundo eles, sofreram uma perda irreparável. Sobre os questionamentos a respeito das circunstâncias da morte, a defesa afirmou que está atuando para obter a documentação médica necessária à apuração dos fatos. O trabalho, segundo eles, será uma apuração “estritamente técnica, responsável e documental”.
“Somente após a análise criteriosa dessas informações é que teremos condições de compreender com absoluta segurança o que de fato ocorreu”, afirmaram.
A defesa também pediu que sejam evitadas conclusões antecipadas sobre o caso. “Alimentar teorias e espalhar inverdades nesse momento é uma atitude irresponsável e não pretendida pela família”, disseram os advogados.
Ao final do vídeo, a defesa pediu respeito à memória de Marta e aos direitos de personalidade dos integrantes da família, especialmente das crianças, e afirmou que os esclarecimentos serão prestados “no momento oportuno e com a segurança técnica exigida”.
Unimed-VR não divulga informações sobre atendimento
Procurado pela Folha do Aço, o Hospital Unimed Volta Redonda afirmou que mantém como princípio a privacidade dos pacientes e a confidencialidade das informações relacionadas aos atendimentos. Em nota, a unidade informou que os atendimentos seguem condutas definidas de acordo com o quadro clínico de cada paciente, além dos protocolos assistenciais da instituição e das diretrizes de segurança do paciente.
A Unimed-VR reforçou ainda o compromisso com a qualidade da assistência e com o cuidado aos pacientes.
O que a sindicância poderá esclarecer?
Com a abertura da sindicância pelo Cremerj, a apuração deverá buscar informações que permitam reconstruir a sequência dos acontecimentos e verificar se os procedimentos adotados antes, durante e depois da cirurgia seguiram as normas e boas práticas médicas.
A investigação é importante porque, neste momento, existem informações incompletas e diferentes versões circulando nas redes sociais. Uma eventual relação temporal entre uma cirurgia e uma morte, por si só, não permite estabelecer uma relação de causa e efeito nem caracteriza automaticamente erro médico.
Entre os pontos que poderão ser analisados estão as condições clínicas da paciente antes da cirurgia, a indicação dos procedimentos realizados, os exames pré-operatórios, a avaliação anestésica, a duração e a complexidade da cirurgia, a estrutura utilizada e a conduta adotada pela equipe diante de eventuais complicações.
Também deverá ser considerada a evolução clínica de Marta após a alta e posteriormente, quando precisou retornar ao hospital.
A médica responsável pelo procedimento foi procurada pela reportagem para se manifestar sobre o caso e esclarecer as circunstâncias do atendimento, mas, até o fechamento desta matéria, não havia respondido aos questionamentos enviados. O espaço permanece aberto para eventual manifestação.
Fazer mais de um procedimento na mesma cirurgia é erro?
A realização de mais de um procedimento durante a mesma cirurgia, por si só, não caracteriza irregularidade ou erro médico, explica a advogada Alessandra Gonçalves. Segundo ela, é necessário verificar se a associação dos procedimentos era adequada às condições clínicas da paciente, se os riscos foram avaliados e informados e se houve acompanhamento e atendimento adequado diante de eventual intercorrência.
Para a advogada, a principal questão não é simplesmente saber quantos procedimentos foram realizados, mas se a combinação era segura e apropriada para o caso. Também deve ser verificado se os riscos foram devidamente explicados à paciente antes da cirurgia.
Alessandra ressalta ainda que uma complicação ou mesmo uma morte após uma cirurgia não significa, automaticamente, que houve erro médico. Para que exista responsabilização, segundo ela, é necessário comprovar a ocorrência de negligência, imprudência ou imperícia e demonstrar que essa conduta contribuiu para o resultado.
“Só porque a paciente assinou o termo, isso não significa que o médico está livre de responsabilidade caso tenha agido de forma inadequada”, afirma.
Ainda de acordo com a advogada, a apuração deve ser baseada em documentos e critérios técnicos, permitindo avaliar se houve alguma falha na conduta médica e qual foi sua eventual relação com o desfecho do caso.
Documentos podem ser fundamentais para esclarecer o caso
Em situações como essa, a documentação médica ganha importância para reconstruir os acontecimentos. Prontuários, exames, documentos relacionados ao procedimento e registros dos atendimentos realizados antes e depois da cirurgia podem ajudar a estabelecer uma linha do tempo.
A análise também pode ser feita por um médico independente, preferencialmente especialista na área relacionada ao procedimento realizado. Esse profissional poderá avaliar tecnicamente as condutas adotadas e verificar se estavam de acordo com as boas práticas médicas.
Influenciadora tinha mais de 229 mil seguidores
Marta Kelly era conhecida nas redes sociais principalmente por conteúdos relacionados à maternidade, à rotina familiar e ao cotidiano com o marido e os três filhos. O perfil da influenciadora no Instagram reunia mais de 229 mil seguidores.
Ela era casada com Marcus Vinicius, que também trabalha com produção de conteúdo digital e possui cerca de 559 mil seguidores. O casal costumava compartilhar momentos da vida familiar, incluindo viagens, brincadeiras com os filhos e situações do dia a dia.
A morte provocou forte repercussão nas redes sociais e ampliou o debate sobre procedimentos estéticos, riscos cirúrgicos e a busca por determinados padrões de beleza.
Enquanto a família aguarda a documentação médica e o Cremerj prepara a abertura da sindicância, ainda não há conclusão oficial sobre o que provocou a morte da influenciadora.
Foto: Reprodução/Redes Sociais













































