Temas como contaminação do solo, gestão de resíduos e recuperação ambiental têm ganhado espaço nas discussões sobre desenvolvimento sustentável e saúde pública. Em meio aos desafios impostos pelas mudanças climáticas e pela necessidade de conciliar crescimento com preservação, especialistas defendem que a regeneração de áreas degradadas deixou de ser apenas uma exigência legal e passou a ser uma questão estratégica para cidades e empresas.
A engenheira química e especialista em gestão ambiental Gisele Penido atua há mais de duas décadas em áreas ligadas à sustentabilidade, perícia ambiental e recuperação de passivos. Um dos campos de estudo aos quais se dedicou ao longo da carreira envolve os impactos provocados por cemitérios sobre o meio ambiente, tema ainda pouco discutido, mas que pode representar riscos à saúde pública devido à contaminação do solo e das águas subterrâneas pelo necrochorume.
Em reportagem publicada em julho do ano passado, a Folha do Aço revelou problemas estruturais e ambientais no Cemitério Municipal Bom Jardim Isidório Ribeiro, no bairro Retiro, em Volta Redonda. Com base em uma vistoria realizada por Gisele Penido, a matéria apontou a existência de sepulturas abertas, estruturas deterioradas e sinais de contaminação pelo líquido resultante da decomposição dos corpos. Na época, a perita cobrou providências urgentes do poder público para a recuperação da área, alertando para o risco de contaminação dos lençóis freáticos e a proliferação de doenças.
Superlotação e contaminação
Como resposta aos problemas crônicos de espaço e impacto ambiental, a Prefeitura de Volta Redonda anunciou, no final do mês passado, que a cidade ganhará nos próximos meses um Crematório Municipal. Com investimento previsto de aproximadamente R$ 2 milhões, o espaço está sendo construído justamente no Cemitério Municipal do Retiro e já atingiu 50% das obras físicas concluídas.
De acordo com o diretor do Departamento Funerário da Secretaria Municipal de Serviços Públicos (SMSP), Paulo Afonso da Silva, o projeto aproveita uma área próxima à administração do cemitério. A adequação do espaço para receber o maquinário está adiantada, incluindo a troca do telhado da estrutura.
O diretor da SMSP destacou que a construção busca aliviar tanto a superlotação do local quanto os impactos ambientais causados pelo acúmulo de corpos em decomposição. “Não temos mais espaço físico para novos jazigos perpétuos e também tem a questão do Meio Ambiente. Com isso, a cremação é uma iniciativa que busca solucionar estas questões e que muitos estão procurando atualmente”, explicou Paulo Afonso, confirmando a preocupação com a liberação de necrochorume e sua infiltração no lençol freático.
Mercado e Sustentabilidade
Além do trabalho com necrópoles, Gisele Penido desenvolve projetos voltados à recuperação de áreas contaminadas por derivados de petróleo por meio da biorremediação. A técnica utiliza organismos vivos para reduzir os danos causados por substâncias tóxicas e vem sendo apontada como uma alternativa viável e mais ecológica para a regeneração de solos degradadas.
Para a engenheira, a preocupação com o ecossistema passou a integrar as estratégias de sobrevivência corporativa. “O futuro pertence às empresas que aprendem a regenerar. Recuperar áreas contaminadas, reduzir impactos e transformar passivos ambientais em valor econômico não é apenas sustentabilidade, é uma questão de sobrevivência”, afirma.
A profissional também é autora de livros sobre economia verde, inteligência artificial aplicada aos créditos de carbono e os impactos da contaminação sobre a saúde humana. Entre as obras publicadas estão Indústria Limpa, Quem Disse que Dinheiro Não Nasce em Árvore?, Crédito de Carbono + IA e Quando os Mortos Adoecem os Vivos. Sua trajetória foi destaque recente na revista Forbes, que ressaltou sua contribuição para o desenvolvimento de soluções em biotecnologia.
Signatária do Pacto Global da ONU, a profissional participa ativamente de debates ligados às agendas climáticas internacionais. Para ela, o conceito de sustentabilidade é amplo e deve abraçar aspectos sociais, como diversidade e promoção de oportunidades de forma igualitária.
A tendência, segundo analistas do setor, é que o mercado global pressione cada vez mais por essas práticas, transformando a recuperação de passivos ambientais na principal ferramenta para proteger a saúde das futuras gerações.












































