Dados das Leis Orçamentárias Anuais (LOA) indicam que, entre 2024 e 2025, houve uma redução aproximada de 4,65% nos recursos destinados à execução de obras de contenção de encostas em áreas de risco e taludes em Volta Redonda.
Em 2024, o orçamento previsto para essa finalidade foi de R$ 3.201.057,00. Já em 2025, o valor destinado caiu para R$ 3.052.100,00, o que representa uma diminuição nominal de R$ 148.957,00.
Embora o orçamento global do município supere R$ 1,8 bilhão, os recursos destinados à contenção de encostas representam cerca de 0,18% do total em 2024 e aproximadamente 0,17% em 2025. A variação pode parecer pequena dentro do orçamento geral, mas ganha relevância por se tratar de investimentos diretamente ligados à prevenção de desastres e à preservação de vidas.
Tragédia em JF reforça alerta nacional
A discussão sobre prevenção ganhou força após as fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora, em Minas Gerais. Até o início deste domingo (dia 1°), o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais havia confirmado 63 mortes em decorrência de deslizamentos de terra e enchentes. O número de desaparecidos era de 13, além de milhares de desabrigados.
O cenário evidenciou, mais uma vez, a vulnerabilidade de cidades com topografia acidentada diante de eventos climáticos extremos. Especialistas apontam que intervenções como cortinas atirantadas, estruturas ancoradas no solo para estabilização de encostas, e sistemas adequados de drenagem podem reduzir significativamente os riscos em áreas críticas.
O episódio reforça que ações emergenciais, embora indispensáveis, não substituem políticas públicas permanentes de longo prazo voltadas à mitigação de riscos.
A tragédia que marcou Volta Redonda
Em Volta Redonda, a última grande tragédia provocada por deslizamento de terra ocorreu em 1982, na Rua Resende, no bairro Eldorado, na região do Grande Retiro. O desabamento de um barranco resultou na morte de uma mulher e de uma criança, marcando profundamente a memória da cidade e acendendo o alerta para os riscos geológicos em áreas urbanas construídas em encostas.
Até então, o município não contava com políticas estruturadas de contenção. A partir de meados da década de 1980, o cenário começou a mudar.
Durante a gestão do então prefeito Marino Clinger (1986-1988), a Secretaria Municipal de Obras, sob a liderança do engenheiro Sérgio Sodré, passou a enfrentar de forma técnica e planejada problemas considerados crônicos no município. À época, os investimentos em infraestrutura pesada foram alvo de críticas por parte da oposição, que questionava o volume de recursos destinados a obras de contenção, intervenções de alto custo e pouca visibilidade política.
Enquanto parte do debate público defendia prioridades mais imediatistas, a administração municipal sustentava que a prevenção de desastres exige planejamento, responsabilidade fiscal e investimento contínuo, mesmo quando o retorno político não é imediato.
Soluções pioneiras e bairros beneficiados
Naquele período, a Cidade do Aço adotou soluções consideradas inovadoras para a época, como a implantação de cortinas atirantadas e muros de solo-cimento, técnicas de engenharia geotécnica voltadas à estabilização de taludes.
Parte do conhecimento técnico aplicado teve como referência experiências desenvolvidas em Juiz de Fora, que à época era considerada referência nacional em obras de contenção de encostas devido à sua topografia acidentada. As intervenções representaram um marco na prevenção de deslizamentos em Volta Redonda e beneficiaram diretamente comunidades historicamente vulneráveis. Entre os bairros atendidos estão Coqueiros, Mariana Torres, Vila Brasília, São Cristóvão, Minerlândia, Santa Inês, Retiro, Ponte Alta, Eucaliptal e Santo Agostinho.
A última grande intervenção com cortina atirantada foi executada no bairro São Sebastião.
Estrutura institucional permanente
Com a criação do Fundo Comunitário de Volta Redonda (Furban), em 1993, durante o governo do então prefeito Paulo Cesar Baltazar (1993-1996), o município passou a contar com uma estrutura institucional específica para a execução de obras de contenção de encostas e intervenções em áreas de risco.
O fundo consolidou uma política pública permanente de prevenção, garantindo continuidade administrativa aos serviços de estabilização geotécnica ao longo das décadas.
Debate sobre prioridade orçamentária
Em um cenário de mudanças climáticas e eventos extremos cada vez mais frequentes, o debate sobre prioridade orçamentária ganha centralidade. Embora os recursos destinados à contenção representem pequena parcela do orçamento total, tratam-se de investimentos diretamente relacionados à segurança da população.
A experiência recente de Juiz de Fora e a memória histórica de Volta Redonda reforçam uma conclusão recorrente entre especialistas: prevenção exige continuidade, planejamento técnico e decisão política. Obras estruturantes podem não gerar impacto imediato na percepção pública, mas são determinantes para evitar que períodos de chuvas intensas se transformem em tragédias anunciadas.











































