Pela democracia liberal 

Yascha Mounk define democracia liberal como um sistema de governo onde há uma combinação de liberdades individuais e políticas públicas baseadas na opinião popular. Na primeira metade do século XX, o mundo viu o triunfo do nazi-fascismo e a emergência da segunda guerra mundial.

Mas nas últimas décadas a democracia liberal gozou de prestígio, e predominou na maior parte do mundo. Francis Fukuyama, em polêmico ensaio, chegou a decretar o fim da história, com a vitória definitiva do liberalismo democrático e da economia de mercado.

Exageros à parte de Fukuyama, o fato é que nenhum grande especialista seria capaz de duvidar do perfil duradouro da democracia liberal até alguns anos atrás. A paz, a prosperidade econômica, a redução dos conflitos civis, o avanço tecnológico e a morte do comunismo totalitário não deixavam dúvidas: a democracia liberal chegou para ficar. Mas não foi isso o que aconteceu. 

Nos últimos anos, nos surpreendemos com a eleição de uma série de presidentes populistas em várias partes do mundo. Na Europa, nos Estados Unidos e também no Brasil. Na Hungria, Victor Orbán governa dentro do que se convencionou chamar “democracia iliberal”. A Polônia, tida como exemplo de transição do autoritarismo soviético à democracia, também vive momentos de ameaça autoritária. 

Nos Estados Unidos, país de vigorosa tradição democrática, o poder é hoje ocupado por uma figura bizarra que odeia imigrantes, que prometeu prender adversários políticos e que destila ódio às minorias pelo Twitter. A democracia liberal desmorona em países desenvolvidos, e na América do Sul, as liberdades são agredidas de forma brutal em regimes autoritários da Nicarágua e na ditadura sanguinária de Nicolas Maduro na Venezuela.

O Brasil também cedeu à sedução do discurso demagogo do populismo, elegendo um parlamentar medíocre do baixo clero com ligações fétidas com o mundo das milícias e de simpatias repugnantes com a tortura e o golpismo. A democracia liberal está sob ameaça, e só dois caminhos se apresentam: ou a defendemos com todas as nossas forças, ou assistiremos à morte gradual de conquistas civilizatórias preciosas.

Não há lugar, neste momento, para utopias. É preciso admitir que a história testemunha que não há caminho tão avançado como a democracia liberal. É irresponsabilidade negar isso por teimosia ideológica. O que proponho é uma frente ampla pela democracia liberal, com comunistas, socialistas, liberais, social-democratas, católicos e conservadores de compromissos democráticos. Todos pela recuperação da democracia liberal.

Lembro-me das palavras de uma grande filósofa, de formação marxista, mas positivamente influenciada pelo liberalismo político: “O desenvolvimento da história europeia atingiu sua última fase com a democracia liberal. Não se pode ir mais longe. Podemos somente melhorá-la”. Iria além, incorporando a história de outras significativas partes do mundo, além da Europa. Que as palavras de Agnes Heller nos ensinem alguma coisa.

*Adelson Vidal Alves é historiador

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