Por Adelson Vidal Alves

Enquanto escrevo estão sendo preparadas várias manifestações para domingo (dia 26), em defesa do presidente Bolsonaro. Algumas lideranças dizem que as pautas se resumem à defesa da reforma da Previdência de Paulo Guedes, do pacote anticrime de Sergio Moro e da MP 870. Fosse somente isso, tudo bem, mas o que bolsonaristas nas redes sociais querem é invadir o Congresso e derrubar o STF.

Os atos são convocados no mesmo momento em que o presidente compartilha um texto que reclama do Brasil ser “ingovernável sem conchavos”. O que o bolsonarismo quer, com expresso apoio do próprio Bolsonaro, é pular etapas do sistema democrático, e para isso, as ruas devem confrontar os mecanismos de freios e contrapesos da nossa democracia. O STF, a Imprensa, o Congresso Nacional viram “traidores da pátria”.

Manifestações para defender um presidente recentemente eleito já são estranhas numa democracia. Faria algum sentido caso houvesse uma conspiração ilegítima de “forças inimigas” contra o governo, o que não é o caso. A não ser para quem aceite refletir nos termos delirantes de setores governistas. Afrontar nas ruas instituições democráticas com a intenção de concentrar poderes no Executivo é manobra golpista.

A situação é tão absurda, que até mesmo aliados do governo resolveram denunciar. O MBL (Movimento Brasil Livre) e o Vem Pra Rua – grupos de direita que fizeram fama nas manifestações pelo impeachment de Dilma – reclamaram do caráter autoritário do movimento, e a partir de então são boicotados pelas milícias bolsonaristas das redes sociais. Até mesmo Rodrigo Constantino, guru do liberalismo caricato brasileiro, escreveu texto puxando a orelha de apoiadores de Bolsonaro devido ao assanhamento autoritário.

O presidente chegou a cogitar ir aos atos, o que evidenciaria de forma incontestável a adesão do governo à estratégia de anular o Congresso e fundar uma governabilidade quase imperial na mão do chefe do Executivo. Recuou. Alguém de juízo mostrou a Bolsonaro que seria um tiro no pé, e sepultaria de vez a reforma da Previdência.

Ainda assim, o próximo domingo liga o alerta para as forças democráticas, diante de uma marcha que pretende ser um rascunho da Marcha fascista sobre Roma, de 1922, e a Marcha da Família com Deus, de 1964 no Brasil, ambas criaram as bases para o advento de regimes ditatoriais.

Fica claro o caráter golpista do bolsonarismo, com apoio do presidente. É visível que o que se pretende é desmontar nossa democracia, motivo pelo qual deveríamos assumir de vez a estratégia de derrubar o governo. A democracia é um contrato, e quando um lado rompe esse contrato, o outro fica desobrigado. Bolsonaro rompeu o acordo democrático por várias vezes. 

* Adelson Vidal Alves é historiador

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