Mil quatrocentos e sessenta e dois dias após deixar a prefeitura, Antônio Francisco Neto (DEM) retornou ao comando do Palácio 17 de Julho. A posse aconteceu no dia 1º de janeiro. Como era de se esperar, a primeira semana efetiva de trabalho foi marcada por ataques verbais direcionados a seu maior desafeto da atualidade, o ex-prefeito Samuca Silva (PSC). “Não tenho um tostão. Essa prefeitura está quebrada. Destruíram a prefeitura de Volta Redonda”, afirmou.

A retórica de Neto ficou voltada à condição financeira herdada por sua equipe. Segundo ele, o Município acumula dívida de R$ 32 milhões com a concessionária Light. Ainda de acordo com o prefeito, nos primeiros dias foram arrecadados R$ 500 mil, valor insuficiente para arcar com pequenos custos de manutenção da máquina pública.  “O que eu estou falando pode estar assustando, mas está pior ainda, muito pior. Temos uma despesa fixa de R$ 79 milhões e arrecadação de R$ 54 milhões. Fora precatórios que não se paga, Light que não se paga”, disse.

Apesar do argumento de falta de recursos na ponta da língua, os primeiros dias do novo governo Neto foram marcados pela ameaça de greve por falta de pagamento dos funcionários da Garagem Municipal, localizada no bairro Aero Clube, e do Curral do Conselho, no Retiro. Os dois setores são ligados à secretaria de Infraestrutura. “Eu lamento profundamente. Por que não fizeram isso antes? Vão fazer num governo que está há três dias [na verdade já era sete] e que está cheio de problemas? Nós vamos anotar as pessoas e tomar as providências”, ameaçou o chefe do Executivo em entrevista à Nova Sul Fluminense. “Já não temos como pagar mesmo, então vamos cortar o salário. E quando pagar, vamos descontar das pessoas que não estavam trabalhando”, completou.

Eleito na condição sub judice, beneficiado por uma decisão liminar obtida durante o recesso da Justiça Eleitoral, Neto aposta no velho discurso de “pessoas competentes” para administrar Volta Redonda. “Não tem outra solução. Não tenho máquina de fabricar dinheiro. Vou dar um jeito, eu vou arrumar essa cidade, custe o que custar, por isso convidei pessoas competentes para me ajudar”, salientou.

Samuca rebate acusações

“Tá na hora de falar menos e colocar a equipe para focar e trabalhar”. Assim reagiu Samuca Silva (PSC) aos ataques de seu sucessor no Palácio 17 de Julho, Neto (DEM). Na tarde de sexta-feira (dia 8), o ex-prefeito utilizou as redes sociais para expor seu posicionamento sobre a situação financeira de Volta Redonda.”Não é de hoje que falo da situação do Município, que, com a crise da pandemia da Covid-19, teve uma queda de arrecadação de mais de R$ 50 milhões, além de bloqueio de contas por conta de precatórios”, lembrou.

O texto prossegue com Samuca citando a queda na arrecadação do Município impulsionada pela Covid-19. “Hoje vejo pessoas falando de dívidas, em problemas e despesas. Alguns governaram 20 anos, eu governei Volta Redonda por 4 anos e com uma dívida de R$ 1,7 bilhão. Não reclamava, trabalhava. Não atrasei um mês de salário até, infelizmente, ter a pandemia e um bloqueio de contas da PMVR de R$ 15 milhões no final do ano, que se repetiu já este ano [2021]. De forma arbitrária e sem coração, fez com que R$ 5 milhões e o 13º terceiro não fossem quitado”, ressaltou.

Samuca Silva também demonstrou pessimismo para os próximos meses. “A questão vai piorar: os precatórios, aquelas dívidas de antes de meu governo, serão agora 5% mês, cerca de R$ 50 milhões ano. Com a Covid a receita caiu. Se não houver desenvolvimento econômico como foco, polo metalmecânico como meta, atrair novos investimentos, rever planta de valores, regularização fundiária, licitar a folha de pagamento e aumentar a receita própria através do Refis, não se conseguirá chegar em julho. Aí não terá o Samuca Silva como desculpa”, concluiu.

A postagem do ex-prefeito é ilustrada com a cópia de um memorando (nº 4533), da secretaria municipal de Saúde, com data de 17 de maio de 2017. O documento revela que o total da dívida apurada, referentes aos exercícios anteriores a 2017, correspondiam a mais de R$ 1,7 bilhão.    

Memória curta

A dívida do Município de Volta Redonda com a Light se arrasta há anos. Em abril de 2016, a Câmara de Vereadores aprovou o parcelamento do débito em 60 meses. Já naquela época, conforme matéria publicada no site Foco Regional, com data de 13 de abril, o valor devido era de R$ 32,7 milhões.A mensagem do parcelamento enviada pelo governo, votada em regime de urgência e preferência, foi aprovada por 16 votos contra cinco. A dívida se referia aos últimos 12 meses (abril de 2015 a abril 2016) e incluía R$ 14,2 milhões do Saae.

Segundo o governo, o acúmulo de contas da iluminação pública devia-se à crise financeira, que levou a administração a priorizar o pagamento do funcionalismo.As contas não pagas incluíam o fornecimento de energia elétrica também para atividades festivas, como a iluminação de Natal.

A concessionária de energia elétrica queria, inicialmente, parcelar o débito em 36 meses com juros mensais de 1%, mas nas negociações com o prefeito Neto aceitou estender o prazo para 60 meses. Os juros negociados foram de 0,5% por mês.

Os vereadores que votaram a favor da mensagem disseram reconhecer os problemas enfrentados pelo município com a queda de arrecadação. Já os cinco que foram contrários ressaltaram que era mais uma dívida que o atual governo deixaria para o próximo, no caso Samuca Silva.

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