Por Adelson Vidal Alves

Os conservadores têm horror à palavra “gênero”, ligada diretamente ao termo “ideologia de gênero”, que não pertence ao arcabouço teórico dos que debatem seriamente a questão da diversidade sexual. Mas o terror fundamentalista conservador colocou barreiras autoritárias para que temas preciosos para a cidadania LGBTQI sejam debatidos com nossos jovens e crianças na escola. O Brasil se inscreveu com letras maiúsculas na lista do atraso. 

Mas, afinal, o que de fato está em debate nessas questões de gênero e sexualidade? A filósofa Simone de Beauvoir colocou fogo no Brasil quando sua frase “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” foi parar na avaliação do Enem.

Para muita gente, a escritora sugeriu que as pessoas teriam a seu dispor um cardápio de identidades sexuais a serem escolhidas como se escolhe um filme no cinema. Neste caso, lógico, nossas crianças estariam sendo induzidas a deixarem seus “sexos naturais” e se aventurarem por outras praias. 

Beauvoir, na verdade, defende que os sexos são realidades imutáveis, mas que o gênero não é a extensão deste sexo, como se o macho estivesse naturalmente ligado ao gênero masculino e a fêmea ao feminino. A autora de “O segundo sexo” diz que o gênero é adquirido na experiência social, num processo histórico onde a “mulher” é construída e não definida automaticamente. 

Há, é verdade, teóricas radicais no feminismo e no movimento LGBTQI. É o caso da escritora francesa Monique Wittig (1935-2003), que propõe a abolição do binarismo sexual. A ideia de “mulher”, segunda a autora, é uma naturalização forçada, uma construção. Dessa forma, não existiriam sexos, na verdade, existiriam vários sexos, cada pessoa teria um.

Integrante do “feminismo lésbico”, a autora pretende destruir a heterossexualidade compulsória, e vê na lésbica uma protagonista, visto que não é mulher, pois a mulher só existe na relação direta com o masculino. Wittig acha que as lésbicas não podem “participar” da heterossexualidade, caberia somente uma revolução radical contra o conformismo radical com a heterossexualidade compulsória.

A autora, ainda, compreende a homossexualidade como algo fora da heterossexualidade, no que discorda outra grande teórica do gênero, a estadunidense Judith Butler.

Butler vê a “heterossexualidade coerente” como um fetiche, e entende que elementos da heterossexualidade se misturam na homossexualidade, e vice-versa. Há espaço, aqui, para debatermos a ressignificação do próprio conceito de heterossexualidade, o que é negado por Wittig. 

O fato é que o mundo natural e social não é como canta a mitologia bíblica, de homens e mulheres perfeitamente ajustados aos seu devido gênero.

A complexidade da vida sexual já é há algum tempo objeto de calorosos debates, em um lugar onde a ignorância mata, e faz diariamente de vítimas fatais gays, lésbicas e travestis. Só com conhecimento é que nossas crianças poderão entender e assim respeitar o diferente. Mas no Brasil, a maioria das câmaras parlamentares resolveram tirar o direito de nossas crianças de aprender a serem tolerantes.

* Adelson Vidal Alves é historiador

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