Em um segundo depoimento ao Ministério Público, o vereador Gilmar Lélis, autor da denúncia à promotoria, esclareceu que, desde a campanha de 2016, seu companheiro de partido, Zélio Show fazia parte do grupo político de Rodrigo Drable (DEM), “tanto que comentou já ter recebido valores em espécie em contrapartida a apoio ao prefeito”.

Segundo ele, no final de 2019, o panorama mudou, e Zélio passou a apoiar grupo político oposto ao prefeito, “voltando novamente a integrar a organização criminosa no episódio da compra de votos para aprovação das contas de 2018, inclusive praticando atos de corrupção”.

Entre os meses de fevereiro e março desse ano, Gilmar recebeu telefonema, via WhatsApp, do presidente da Câmara, vereador Paulo Chuchu, desejando marcação de encontro pessoal. De fato, a conversa aconteceu na residência do autor da denúncia, no bairro Vila Nova. O assunto tratado no encontro teve como pano de fundo o parecer do TCE. Em um dado momento, de acordo com o Ministério Público, Chuchu indagou ao vereador sobre qual seria seu voto na sessão de aprovação das contas do Município e se gostaria de “compor” com o prefeito.

Ainda conforme a denúncia, o presidente da Câmara externou a intenção de Drable em encontrar pessoalmente Gilmar. Após essa primeira abordagem, o denunciado Paulo Chuchu marcou novo encontro, “e, de forma livre, consciente e direta, ofereceu, em nome do prefeito, a quantia de R$ 40 mil para que Gilmar votasse pela aprovação das contas”.

Após as investidas infrutíferas do presidente do Legislativo, foi a vez de Zélio Show iniciar as abordagens destinadas a convencer Gilmar a aceitar a vantagem financeira em troca do voto favorável às contas de 2018. Assim, no dia 12 de maio de 2020, em conversa telefônica com o vereador, o denunciado afirmou estar acompanhado do prefeito “e que este gostaria de conversar pessoalmente”.

Foi a partir daí que as ofertas começaram a ser gravadas do Gilmar, seguindo orientação do advogado. Munido com o equipamento eletrônico, o vereador, no mesmo dia 12 de maio, por volta das 13h30 dirigiu-se ao local combinado, na Rua General Barcelos, onde Zélio entrou em seu veículo e afirmou que o prefeito desejava um encontro pessoal.

“Zélio ainda declarou, por determinação do prefeito, que se Gilmar votasse a favor da aprovação das contas da prefeitura de Barra Mansa, Drable entregar-lhe-ia o dinheiro em espécie, a ser arbitrado, a princípio e por sugestão de Zélio, no mesmo valor pago pelo prefeito aos vereadores de sua base a título de ‘ajuda’ de campanha”, revela um trecho da denúncia do Ministério Público. Foi neste momento, ainda de acordo com a promotoria, que Zélio Show confirmou que outros vereadores já haviam recebido valores em razão da “compra do voto”.

No mesmo dia, cerca de 40 minutos após o primeiro encontro e no mesmo local, Zélio detalhou, após nova conversa com o prefeito, “que o pagamento seria na ordem de R$ 30 mil no exato momento do encontro, além de uma ‘ajuda’ de campanha, entendida como sendo no valor de R$ 40 mil”, já que o denunciado, ao se referir à “ajuda” de campanha, fez com uma das mãos gesto utilizando quatro dedos, em expressa alusão ao valor. Na oportunidade, o denunciado ainda afirmou que outros vereadores já haviam “fechado” para compor a base governista.

Após o vereador Gilmar Lélis concordar em estar pessoalmente com Rodrigo Drable, o encontro foi marcado para o mesmo dia no Horto da Água Cumprida, em Barra Mansa. No local apontado, comparecendo Zélio Show e o prefeito, acompanhado do coronel reformado Jorge Ricardo. Verificando estar em desvantagem numérica, Gilmar, por receio, informou que não entraria no Horto, motivo pelo qual todos se dirigiram para a Estrada Vereador Carlos Campbell Vieira, no bairro Vila Nova, em veículos separados.

No novo ponto de encontro, Zélio, acompanhado de Jorge Ricardo, assumiu a direção do automóvel do vereador Gilmar, enquanto este ingressava no veículo do prefeito. Munido com os dispositivos eletrônicos de captação de imagem e som, Gilmar gravou quando Drable confirmou o oferecimento de vantagem indevida anteriormente [R$ 30 mil] e “reafirmou que entregaria a quantia mencionada logo após o término da sessão da Câmara”. A conversa terminou sem que o vereador desse uma resposta conclusiva sobre qual seria a direção de seu voto na sessão que ocorreria no mesmo dia.

A sessão para aprovação das contas ocorreu no mesmo dia 12 de maio, tendo contado com a aprovação de 14, exatamente como antevisto por Zélio Show. O vereador Gilmar Lélis votou contra a aprovação das contas do prefeito.

Com as evidências apresentadas na denúncia, o Segundo Grupo de Câmaras Criminais do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) expediu mandado de busca e apreensão nos endereços do prefeito Rodrigo Drable, dos vereadores Zélio Show e Paulo Chuchu, além do coronel reformado Jorge Ricardo, bem como em seus respectivos gabinetes, na sede da prefeitura e da Câmara de Barra Mansa, com o objetivo de buscar e apreender anotações pessoais, papéis, telefones celulares, notebooks, pen drives, agendas telefônicas, DVDs, CDs, discos rígidos, em suma, todos os objetos de interesse probatório, bem como, uma vez expedidos os respectivos mandados. Os mandados foram cumpridos na manhã da última terça-feira.

Outro lado

A prefeitura de Barra Mansa disse, em nota, que Rodrigo Drable foi “acusado indevidamente”. Ainda de acordo com o comunicado, a denúncia trata-se de uma “manobra política” e que “o corpo jurídico do prefeito já está trabalhando na elucidação dos fatos”.

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