Por Adelson Vidal Alves

O PT emitiu nota sobre a situação da Venezuela, condenando a “tentativa de golpe, levada a cabo pela oposição da direita golpista e antichavista”. No documento podemos ler: “grupos opositores tentam há anos derrubar o governo democraticamente eleito do Partido Socialista Unido da Venezuela”. O governo “democraticamente eleito” a que se refere o Partido dos Trabalhadores impôs ao país uma ditadura aberta, e chegou ao poder através de eleições fraudadas e aparelhamento das instituições.

Nicolás Maduro prende opositores de forma arbitrária, censura os meios de comunicação contrários ao regime e dribla as normas institucionais para garantir o controle do poder. A nota do partido sai no mesmo dia em que o mundo vê cenas de um blindado avançando contra a população desarmada. Mas o texto petista prefere falar de supostas “políticas voltadas ao bem-estar da população e contrárias à exploração imperialista e das elites locais”.

Onde poderíamos ver esse “bem-estar”? Nos milhares de refugiados mundo afora? Nas prateleiras vazias do supermercado? No desemprego e na inflação estratosférica? No documento, por fim, conclama os democratas a se unirem pela paz na Venezuela, e traz a solução dos problemas: acabar com o embargo econômico.

A nota constrangedora não é só absurda por defender um tirano covarde e inescrupuloso. Ela revela as contradições gritantes do partido. De um lado, reclama ao mundo o “golpe” do impeachment no seu país, mas apoia mecanismos ilegais de chegada ao poder, e fecha os olhos para agressões aos direitos humanos praticados diariamente no nosso vizinho Sul Americano.

O impeachment foi um processo legal, observado pela suprema corte e em acordo com o rito constitucional estabelecido. O Brasil segue normalmente sua vida institucional, a Venezuela segue condenada por organismos internacionais e com eleições não reconhecidas por países do mundo todo.

No dia dos atos convocados pelo irresponsável Guaidó, os meios de comunicação foram desativados, apenas a TV Estatal esteve no ar, passando a versão oficial dos fatos, obviamente, de interesse governista. O ato, típico de governos totalitários, passou despercebido na nota petista, assim como a violência diária de milícias bolivarianas e das forças armadas contra a população.

O petismo revela seu apreço pelo autoritarismo, sempre que os autocratas sejam aliados ou amigos. Fica exposto o cinismo de quem clama por democracia aqui, mas aceita a tirania quando lhe convém.

* Adelson Vidal Alves é historiador

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