Para efetivamente transformar Angra dos Reis numa espécie de “Cáncun Brasileira”, como declarou na segunda-feira (dia 6) o presidente Jair Bolsonaro (PSL), o Poder Público terá que investir muito em política de segurança no município da Costa Verde. A guerra do crime organizado voltou a aterrorizar moradores e turistas durante a semana.

Na quinta-feira (dia 9) foram cerca de três horas de tiroteio, levando a interditar a Rio-Santos, na altura do km 483, segundo a Polícia Rodoviária Federal. O confronto envolveu um grupo armado, associado a uma milícia, que invadiu uma comunidade controlada por quadrilha rival, dando início a uma série de tiroteios.

A disputa do crime organizado causou pânico entre milhares de moradores e, numa escola, crianças tiveram de ficar deitadas dentro de uma sala, enquanto seus pais eram orientados a não sair de casa para buscá-las.

“Está acontecendo um tiroteio intenso bem próximo daqui. Estamos com todos os alunos deitados no chão da sala de televisão. Peço a vocês que não venham para cá, todos os funcionários estão protegendo as crianças da melhor maneira possível”, disse uma professora em uma mensagem de áudio enviada para um grupo de pais de alunos da Escola Municipal Antônio Joaquim de Oliveira, localizada na comunidade Sapinhatuba 1, cenário do confronto. “Por favor, tentem orar para que tudo dê certo. Por favor, orem para que todos nós consigamos sair daqui com tranquilidade”, completou.

Pelo menos três homens ficaram feridos no tiroteio. Eles foram levados para o Hospital Geral da Japuíba. Diogo Augusto Teixeira, 27 anos, e Luís Antônio Alves, de 52, são funcionários de uma farmácia. Diogo foi atingido nas nádegas e Luís Antônio no tornozelo esquerdo. Eles foram medicados e liberados.

Já Oscar Amâncio, de 26, além de ser atingido por um disparo, foi atropelado enquanto tentava fugir do confronto na Sapinhatuba 1. Ele teve uma perna amputada e, até sexta-feira (dia 10), encontrava-se internado em estado grave.

Turistas

Um grupo de 28 franceses ficou preso na Rio-Santos durante as quase três horas de tiroteios. Eles tinham feito um passeio à Ilha Grande e pretendiam conhecer Angra e Paraty. “Fiquei com vergonha. Para alavancar o turismo em Angra, é necessário capacitar profissionais, preservar o meio ambiente e proporcionar segurança. O que aconteceu foi triste”, afirmou em entrevista ao jornal O Globo a guia Waldeck Tenório, que apresentava a região aos franceses.

Uma foto postada pelo aplicativo “Onde Tem Tiroteio” mostrava os passageiros de um ônibus que passava pelo local jogados no chão. Vários veículos também foram flagrados por um vídeo voltando na contramão na Rio-Santos.

O prefeito de Angra, Fernando Jordão (MDB), lamentou a situação e lembrou que pediu na última semana ao governo federal que inclua o município em um projeto piloto de segurança pública que deverá contemplar seis cidades com mais de 500 mil habitantes, incluindo uma capital.

Ele destacou que Angra, apesar de ter cerca de 200 mil moradores, tem duas usinas nucleares em funcionamento e lembrou que, em março, um comboio que transportava combustível (urânio) para ambas ficou em meio a um tiroteio. Os confrontos se acirraram depois que uma facção do tráfico se aliou a uma milícia para tentar retomar o controle de favelas tomadas por uma quadrilha oriunda de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. Sapinhatuba 1 teria sido invadida no último dia 5.

Operações acontecem após sobrevoo do governador em helicóptero da Polícia Civil

A troca de tiros de quinta-feira aconteceu horas depois de policiais militares do 33º Batalhão (Angra) prenderem, em Mangaratiba, Thiago Felipe da Silva, o “TH”, de 25 anos. Ele é acusado de ter participado da troca de tiros ocorrida no Sapinhatuba I na última segunda-feira (dia 6) e estaria fugindo para uma comunidade na cidade do Rio de Janeiro. TH foi preso dentro de um carro a serviço de um aplicativo. O motorista também foi levado para a delegacia, sendo liberado por não estar envolvido com o suspeito.

Durante a semana, operações foram realizadas em Angra. Uma delas aconteceu na manhã de terça-feira (dia 7) e reuniu cerca de 100 agentes da Polícia Civil. A ação foi deflagrada três dias depois de o governador Wilson Witzel (PSC) sobrevoar a cidade, acompanhado do prefeito Fernando Jordão (MDB), num helicóptero da Polícia Civil.

O primeiro bairro onde os agentes entraram foi o Areal. Eles foram também ao Belém e Camorim Grande. Houve rápidos confrontos a tiros com bandidos, mas ninguém foi atingido. No final, foram cumpridos sete mandados de prisão e recuperados três carros roubados. Os policiais procuraram também por um suposto cemitério clandestino, mas nada encontraram.

A ação teve a participação de policiais de Angra, do Departamento Geral de Polícia do Interior e de Delegacias Especializadas, com o apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais, a Core. O delegado titular de Angra, Celso Castelo, disse que foram colhidas provas que vão auxiliar em inquéritos instaurados contra traficantes.

Foto: Reprodução WhatsApp

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