Por Adelson Vidal Alves

No ano de 2016, um grupo de acadêmicos, renomados por sinal, publicou o livro “Historiadores pela democracia: o golpe de 2016 e a força do passado”. A publicação seguia um único tom: o impeachment de Dilma foi golpe. Os historiadores que assinaram os artigos já tinham visto um impeachment, o do ex-presidente Fernando Collor, e na época não publicaram livros ou manifestos.

Ali exaltava-se a força do povo de ir às ruas e derrubar um presidente corrupto. Da mesma forma, tais pesquisadores ficaram em silêncio quando o PT e seus satélites pediram impeachment de quase todos os presidentes eleitos na Nova República. Golpe mesmo, segundo os autores, só contra Dilma, derrubada apesar de ter sido eleita democraticamente. Mas Collor também não foi?

A grande verdade é que publicações como esta fazem parte de uma estratégia partidária de mudar os cursos da narrativa histórica. E ela é mais ou menos assim: o PT foi eleito, governou maravilhosamente, ajudou os pobres e por isso atiçou o ódio das elites e sua imprensa golpista. Como seria impossível derrotar os grandes heróis dos oprimidos nas urnas, então foi necessário juntar os “inimigos do povo”, a Globo, a Fiesp e as classes médias para dar um golpe na democracia.

Para isso, precisaram contar com um bando de idiotas indo às ruas como patinhos da Fiesp, já que as grandes mentes do país estavam do outro lado defendendo a presidente dos pobres. A historinha caberia numa série da Netflix, concordam? E não é que acabou indo parar lá? Não chegou a ser uma série, foi um documentário.

Em tom dramático e travestido de investigação imparcial, “Democracia em vertigem”, da cineasta Petra Costa, fez o mesmo que os “Historiadores pela Democracia”, mas com um linguajar midiático mais popular. Na tela, Petra mistura lembranças pessoais e sua interpretação particular sobre alguns acontecimentos políticos recentes.

Não teve espaço no documentário a roubalheira petista, a cumplicidade do PT com ditaduras sanguinárias; o mensalão, que sabotou a república em nome de um projeto de poder; os 12 milhões de desempregados de Dilma; o grande esquema de corrupção que sequestrou o Estado para um partido político e seu ambicioso projeto de perpetuação no governo.

No lugar, a divisão maniqueísta entre o grande salvador Lula da Silva e seu amor pelos excluídos contra os perversos vilões da mídia e da direita, a mesma direita que o PT se aliou para governar e engordar os cofres dos bancos.

Petra fez seu papel como intelectual orgânica do PT, e até acertou quando faz alertas sobre os riscos que nossa democracia corre devido ações de membros do Judiciário, sem mesmo saber das trapalhadas criminosas de Moro e Dellagnol, reveladas recentemente. Mas sua intenção ideológica, claro, preferiu priorizar os excessos da Lava Jato, ao invés de ver suas virtudes.

A vertigem verdadeira atinge os petistas e seus subordinados, que preferem idealizar um Brasil do passado contra os fatos do presente, distorcidos para atender a uma narrativa política.

* Adelson Vidal Alves é historiador

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