Volta Redonda pode estar prestes a perder mais um de seus tradicionais espaços de convivência social e esportiva. O Clube Náutico e Recreativo Santa Cecília, que há quase seis décadas ocupa um imóvel na Rua 562, no bairro Nossa Senhora das Graças, corre o risco de encerrar suas atividades após decisão judicial favorável à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
A sentença, proferida pela 5ª Vara Cível e publicada em 9 de março, julgou procedente a ação de reintegração de posse movida pela empresa. Ainda cabe recurso, mas o cenário é de incerteza para associados e frequentadores do clube.
Histórico da disputa
De acordo com o processo, o imóvel foi cedido ao Náutico em 1966 por meio de contrato de comodato, modalidade gratuita e sem prazo determinado. A CSN notificou o clube pela primeira vez em 2005, estabelecendo prazo para devolução, e voltou a fazê-lo em 2014, sem que houvesse a desocupação do espaço.
Na decisão, a Justiça reconheceu o direito da empresa de retomar o imóvel, entendendo que, após o término do prazo concedido, ficou caracterizado o esbulho da posse. A sentença determina que a desocupação ocorra no prazo de 30 dias após o trânsito em julgado, sob pena de despejo forçado.
Além da desocupação, o clube foi condenado ao pagamento de indenização mensal de R$ 2.230, valor que deverá ser corrigido retroativamente a partir de 2005.
Procurada pela reportagem, a CSN não se manifestou até o fechamento desta edição. A diretoria do clube também não comentou oficialmente a decisão, mas informou, por meio de interlocutores, que avalia medidas jurídicas para tentar reverter a sentença.
Processo que se repete
O possível fechamento do Náutico não é um caso isolado, mas parte de um movimento que vem redesenhando o mapa social de Volta Redonda desde a privatização da CSN, em abril de 1993. Ao longo das últimas décadas, diversos espaços de lazer e convivência ligados à história da cidade deixaram de funcionar ou tiveram sua destinação alterada.
Entre os exemplos frequentemente citados por moradores estão o CTC, vizinho ao próprio Náutico; a Ressaquinha, no bairro Barreira Cravo; o Versátil Clube Siderópolis; o Umuarama, na Vila Santa Cecília; e o campo da Ponte Preta. Outro exemplo é o Recreio do Trabalhador, fundado em 1954, que teve suas atividades encerradas em junho de 2020.
Áreas valorizadas
Outro caso emblemático é o do Clubinho do Laranjal, que também enfrenta uma longa disputa judicial para permanecer em funcionamento. Localizado em uma das áreas mais valorizadas da cidade, o espaço tornou-se alvo de ações de reintegração, com a CSN mantendo posição favorável à retomada dos imóveis historicamente cedidos.
A postura da empresa tem provocado críticas e preocupação entre moradores, que veem desaparecer espaços que, por décadas, funcionaram como pontos de encontro, lazer e sociabilidade. Para muitos associados, o Náutico representa mais do que um clube esportivo.
O espaço é lembrado como palco de encontros, celebrações familiares e atividades que marcaram gerações de volta-redondenses. O possível fechamento reabre o debate sobre o destino dessas áreas e o impacto da perda de espaços de convivência na vida urbana de Volta Redonda.
Grandes shows
Por décadas, o Clube Náutico foi um dos principais centros da vida social de Volta Redonda. Entre as lembranças mais marcantes estão as tradicionais “Domingueiras”, que reuniam jovens em tardes e noites de música e convivência, especialmente nas décadas de 1980 e 1990.
O salão principal da sede social do clube também recebeu shows de bandas como Blitz, Ira!, Information Society, RPM e Skank, atraindo público de diferentes bairros da cidade e até de municípios vizinhos.
“Batia cartão nas Domingueiras, que eram o grande ponto de encontro da juventude da nossa época. Todo mundo se encontrava lá”, relembra o comerciante Paulo César Almeida, de 58 anos, que frequentou o Náutico nos anos 1990.
Foi no mesmo espaço que muitos relacionamentos tiveram início. “Era ali que muita história começava. Teve muito namoro que virou casamento”, contou a professora aposentada Márcia Helena Souza, de 62 anos.
Além dos eventos musicais, as piscinas e as atividades esportivas também fazem parte da memória afetiva dos frequentadores. “Além dos treinos de natação, era onde a gente se refrescava nos dias de calor. E calor em Volta Redonda nunca foi raro”, afirmou a comerciante Cristina Figueiredo, de 49 anos.
Eventos tradicionais, como o Baile Azul e Branco e a Noite do Havaí, ajudavam a reforçar o vínculo entre o clube e a comunidade. “Era uma tradição da cidade. Quando tinha baile, todo mundo sabia”, disse o empresário Silvio Mendes, de 55 anos.
Futuro indefinido
Enquanto o processo segue em tramitação, frequentadores e dirigentes do Náutico ainda mantêm a expectativa de reverter a decisão. O desfecho da disputa judicial deverá definir não apenas o futuro do clube, mas também o destino de um dos espaços mais tradicionais da história social de Volta Redonda.












































