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segunda-feira, junho 1, 2026
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Projeto que amplia Floresta da Cicuta em dez vezes entra em debate e impacta terras da CSN

A ampliação da proteção da Floresta da Cicuta será tema de uma audiência pública marcada para a próxima segunda-feira (dia 1º), às 18h30min, na Câmara Municipal de Volta Redonda. O encontro vai apresentar à população o Projeto de Lei nº 1895/2026, que tramita na Câmara dos Deputados e propõe aumentar em quase dez vezes a área protegida da unidade de conservação, além de mudar sua categoria ambiental.

De autoria do deputado federal Reimont (PT-RJ), o projeto prevê a ampliação da atual Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Floresta da Cicuta, dos atuais 131 hectares para aproximadamente 1.231 hectares. A proposta também transforma a unidade em Refúgio de Vida Silvestre (REVIS), categoria de proteção integral prevista na legislação federal.

A audiência pública foi aprovada e será conduzida pela Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados. O evento contará com a presença do autor da proposta e será aberto ao público, com entrada gratuita. A expectativa é reunir moradores, estudantes, pesquisadores, entidades ambientais e lideranças comunitárias do Sul Fluminense.

Segundo a justificativa do projeto, a mudança busca corrigir um problema histórico na delimitação da unidade de conservação, criada em 1985. Na época, grande parte da mata contínua ficou fora da área oficialmente protegida. Com a ampliação, passariam a ser incluídos remanescentes florestais, matas ciliares do Rio Brandão e dezenas de nascentes consideradas estratégicas para a segurança hídrica regional.

O texto também destaca a importância ambiental da floresta para a preservação de espécies ameaçadas de extinção, como o bugio-ruivo, a onça-parda e o jequitibá-rosa, além de consolidar áreas já restauradas no entorno da unidade. Na justificativa do PL, aponta-se ainda que o aumento da área protegida pode elevar os repasses do ICMS Ecológico aos cofres de Volta Redonda e Barra Mansa.

O outro lado

A proposta de ampliação mexe diretamente com o uso do solo de uma das áreas mais valiosas da região. A Floresta da Cicuta está localizada dentro de terras da Fazenda Santa Cecília, propriedade pertencente à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A ampliação em dez vezes do perímetro impacta diretamente a área de domínio da gigante siderúrgica. A CSN foi procurada pela nossa reportagem para se posicionar sobre o projeto e os impactos em suas terras, mas não se pronunciou até o fechamento desta edição.

Para detalhar os impactos práticos, ecológicos e socioeconômicos dessa mudança, a reportagem conversou com o analista ambiental do ICMBio e gestor da Arie Floresta da Cicuta, Sandro Alves. Confira a entrevista:

Folha do Aço: A ampliação da Floresta da Cicuta de 131 para 1.231 hectares pode trazer quais impactos ambientais concretos para a região Sul Fluminense?

Sandro Alves – A ampliação representa, na prática, multiplicar por quase dez vezes a área de floresta protegida no coração do Sul Fluminense. Hoje, a maior parte da Floresta da Cicuta fica de fora dos limites oficiais, uma herança do traçado feito em 1985, que deixou desprotegidas nascentes, cursos d’água e boa parte da vegetação nativa. Com a ampliação, toda essa área passa a ser protegida de fato: diversas nascentes e o Rio Brandão ganham resguardo, os fragmentos de mata se conectam por corredores que permitem o trânsito dos animais, e os mais de 100 hectares já restaurados ao longo dos anos deixam de correr risco de se perder. O resultado concreto é uma floresta mais íntegra, mais resistente e capaz de cumprir o papel que sempre teve na região: proteger a água, o solo, o clima e a vida silvestre.

O que o PL 1895/2026 representa para a preservação ambiental no estado do Rio de Janeiro?

O projeto recupera e fortalece um dos últimos grandes remanescentes de Mata Atlântica do tipo Floresta Estacional Semidecidual no estado, um tipo de vegetação que já foi severamente reduzido no Rio de Janeiro e que hoje sobrevive em poucos lugares. Ao elevar a Floresta da Cicuta ao nível máximo de proteção, transformando-a em Refúgio de Vida Silvestre, o PL reconhece formalmente aquilo que a floresta já é na prática há décadas e garante que esse patrimônio não seja perdido. Mais do que isso, mostra um caminho possível para o estado: o de conservar a natureza mesmo em meio a regiões densamente urbanizadas e industrializadas, provando que desenvolvimento e meio ambiente podem coexistir.

O projeto prevê a transformação da área em Refúgio de Vida Silvestre. Na prática, o que muda em relação à proteção da fauna, das nascentes e da vegetação nativa?

A mudança de categoria eleva a floresta ao grupo de proteção integral, o nível mais alto previsto na legislação brasileira. Para a fauna, isso significa mais espaço seguro para espécies ameaçadas que precisam de grandes territórios para viver, como o bugio-ruivo e a onça-parda, que hoje circulam por áreas sem proteção. Para diversas nascentes e o Rio Brandão, significa o resguardo legal das fontes de água que abastecem a região, com a recuperação das margens degradadas. E para a vegetação nativa, significa proteger a mata como um conjunto único e indivisível, e não mais aos pedaços. Importante: a nova categoria não impede a presença das pessoas, pois a visitação, a educação ambiental e a pesquisa científica continuam permitidas e, na verdade, tendem a ser ampliadas.

Na prática, qual o impacto da ampliação, caso aprovada, na vida da população de Volta Redonda?

Os ganhos chegam diretamente ao dia a dia das pessoas. Em uma região marcada pela atividade siderúrgica, a floresta funciona como um filtro natural do ar, ajuda a controlar o calor e melhora a qualidade de vida, o que se traduz em saúde. A proteção das nascentes reforça a segurança hídrica, ou seja, mais garantia de água para o futuro. Há ainda um efeito menos visível, mas concreto para o município: como o repasse do ICMS Ecológico leva em conta o tamanho das áreas protegidas, ampliar a Cicuta tende a aumentar os recursos que entram nos cofres de Volta Redonda e Barra Mansa, dinheiro que pode ser investido em saúde, educação, infraestrutura e meio ambiente. E tudo isso sem desapropriação automática de terras: quem já vive ou produz legalmente na área tem suas atividades asseguradas. No fim, a ampliação protege aquilo que a população do Sul Fluminense sempre reconheceu como seu maior patrimônio natural.

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