CSN planeja vender o controle da divisão de cimentos

Criada como estatal e por décadas responsável por empregar milhares de famílias em Volta Redonda, moldando bairros, rotinas e a própria identidade da Cidade do Aço, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) ultrapassou fronteiras e hoje atua como um grupo industrial cada vez mais orientado pela lógica do mercado. Uma nova evidência dessa mudança, iniciada com a privatização em 1993, foi apresentada na quinta-feira (dia 15), quando a empresa informou, em comunicado ao mercado, que pretende vender o controle da CSN Cimentos a partir de 2026, reforçando o distanciamento entre o papel histórico da companhia no município e sua estratégia atual.

O anúncio foi feito durante a Reunião de Atualização Estratégica da companhia e integra um amplo plano de reorganização do portfólio e da estrutura de capital. A apresentação deixou claro que o foco da CSN está na desalavancagem financeira e na concentração de recursos nos negócios considerados de maior retorno, com destaque absoluto para a CSN Mineração, apontada pela administração como a principal avenida de crescimento do grupo nos próximos anos.

Segundo a empresa, o objetivo é destravar o potencial de valor dos ativos sob seu controle, especialmente nas áreas de mineração e infraestrutura, abrindo caminho para um novo ciclo de crescimento sustentável. “A aprovação, pelo Conselho, dos movimentos estratégicos necessários para equacionar definitivamente a estrutura de capital do grupo marca um ponto de inflexão na história recente da CSN”, afirmou Marco Rabello, diretor financeiro e de Relações com Investidores.

Desalavancagem como prioridade

O plano estratégico prevê a redução da dívida bruta entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões ao longo de 2026, por meio da venda de ativos considerados relevantes, mas não centrais no novo desenho estratégico. Entre as principais iniciativas estão a alienação do controle da CSN Cimentos e a venda de uma participação relevante na Newco CSN Infraestrutura.

De acordo com a companhia, essas medidas permitirão reduzir de forma estrutural a alavancagem financeira e gerar uma economia anual estimada entre R$ 1,5 bilhão e R$ 1,8 bilhão em despesas financeiras. “Nosso foco é a redução material do endividamento bruto, com alocação de capital eficiente e disciplina rigorosa”, reforçou Rabello.

Mineração no centro da estratégia

No novo portfólio desenhado pela administração, a CSN Mineração assume papel protagonista. Atualmente, a empresa figura entre as sete maiores exportadoras de minério de ferro do mundo, com histórico recente de recordes operacionais, elevada geração de caixa e margens robustas.

A apresentação destacou a longa vida útil das reservas, estimadas em cerca de 2,5 bilhões de toneladas, e a continuidade de um plano de expansão baseado em projetos maduros, de alta rentabilidade e com foco em produtos de maior teor de ferro. O principal vetor desse crescimento é o projeto P15, que avança em ritmo acelerado e deve adicionar um delta de EBITDA da ordem de R$ 4 bilhões por ano quando plenamente operacional.    “A mineração é hoje o negócio com maior retorno incremental do grupo e aquele que nos levará a um novo patamar de geração de valor”, afirmou Benjamin Steinbruch, presidente do Conselho de Administração e CEO da CSN, ressaltando que a CSN Mineração já concentra uma parcela crescente do EBITDA consolidado.

Infraestrutura no radar de venda

Outro pilar relevante da estratégia é a CSN Infraestrutura, que reúne ativos ferroviários, portuários e multimodais considerados estratégicos para o escoamento de commodities no Brasil. A empresa opera uma plataforma integrada, com ativos maduros e projetos brownfield em expansão, sustentados por demanda contratada e execução comprovada.

Segundo a CSN, trata-se de uma infraestrutura “única e irreplicável”, com impacto positivo relevante no EBITDA futuro. Ainda assim, como parte do plano de desalavancagem, o grupo prevê a venda de uma participação relevante nesse segmento a partir de 2026, mantendo o foco na otimização do capital investido.

Cimentos, siderurgia e energia: ajustes no portfólio

Na CSN Cimentos, hoje uma das líderes na produção integrada no Brasil, a companhia reconhece o forte potencial de crescimento orgânico por meio de projetos greenfield e brownfield, além de uma recuperação já perceptível do mercado. Mesmo assim, a decisão estratégica é pela alienação do controle, movimento visto pela administração como fundamental para liberar capital e reforçar o balanço.

A CSN Siderurgia, berço histórico do grupo e símbolo de Volta Redonda, atravessa um processo de recuperação gradual de rentabilidade, com foco em produtos de maior valor agregado e soluções integradas. A administração informou que avalia alternativas e parcerias para maximizar a geração de caixa no curto prazo, preservando o caráter estratégico do ativo.

Já a CSN Energia foi apresentada como um suporte essencial ao grupo. Autossuficiente em energia renovável desde 2023, a plataforma contribui para a redução de custos, apresenta resultados resilientes e está alinhada à agenda de transição energética. “Trata-se de um negócio de alto retorno, baixo risco e intensivo em geração de caixa”, destacou Steinbruch.

Com o redesenho do portfólio, a CSN projeta que, em até oito anos, será possível dobrar o EBITDA e a rentabilidade do grupo, operando com endividamento em torno de 1x, concentrado em negócios de maior crescimento, sinergia e retorno. Para Volta Redonda, no entanto, o anúncio reforça uma distância histórica entre as expectativas da cidade, que ainda vê na CSN um vetor de desenvolvimento industrial e social, e a lógica financeira que hoje orienta as decisões do grupo. Enquanto o mercado celebra a busca por eficiência e disciplina de capital, a venda da divisão de cimentos simboliza, para muitos moradores da Cidade do Aço, mais um capítulo da transformação da antiga “empresa-cidade” em um conglomerado cada vez mais guiado pelos números do mercado global.

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