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Não é só a BR-393: rodovias do Sul Fluminense expõem motoristas a riscos diários

A precariedade da infraestrutura viária no Sul Fluminense vai muito além da BR-393 (Rodovia Lúcio Meira). Em uma das regiões mais industrializadas do estado do Rio de Janeiro – responsável por escoar produção para diversas partes do país – motoristas convivem diariamente com estradas deterioradas, inseguras e, em muitos casos, negligenciadas pelo poder público.

Rodovias estaduais e federais que cortam municípios como Volta Redonda, Barra Mansa, Angra dos Reis e Barra do Piraí apresentam falhas graves de conservação, colocando em risco não apenas o transporte de cargas, mas principalmente a vida de quem depende dessas vias. O cenário evidencia um problema estrutural que afeta tanto a mobilidade urbana quanto a competitividade econômica da região.

Um dos episódios mais recentes reforça a gravidade da situação. Na manhã da última terça-feira (dia 14), 11 pessoas ficaram feridas após uma van cair em uma ribanceira na RJ-155 (Rodovia Saturnino Braga), na altura de Serra D’Água, em Angra dos Reis. Três vítimas tiveram ferimentos moderados e foram encaminhadas para hospitais.

O caso foi citado por autoridades como exemplo claro da urgência de intervenções. “Isso não é fatalidade, é consequência do descaso. Precisamos de planejamento e manutenção contínua para evitar tragédias”, afirmou o deputado estadual Jari Oliveira (PSB).

A RJ-155 é uma das principais ligações entre o Sul Fluminense e a Costa Verde, conectando a Via Dutra à Rodovia Rio-Santos. Além de fundamental para o turismo, a estrada é estratégica para o transporte de cargas. Ainda assim, apresenta trechos críticos, com problemas estruturais e falta de manutenção, o que aumenta o risco de acidentes.

Outro ponto de preocupação está em Volta Redonda, na Rodovia dos Metalúrgicos, especialmente no trecho próximo ao acesso à Via Dutra, no bairro Casa de Pedra. No local, crateras ocupam praticamente metade da pista, obrigando motoristas a realizar manobras perigosas. Um cone improvisado foi colocado como alerta, evidenciando a ausência de intervenção efetiva. Apesar da gravidade, o trecho ainda não mobilizou ações organizadas por melhorias, um contraste com o que ocorre na BR-393.

Audiência pública

A BR-393, por sua vez, concentra a maior mobilização política e institucional. Atualmente sob gestão do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), após a descontinuidade da concessão anterior, a rodovia apresenta sinais avançados de deterioração, especialmente no trecho entre Barra do Piraí e Vassouras.

Buracos, ausência de radares, falta de guinchos e ambulâncias agravam o risco para motoristas e passageiros.

A situação motivou uma audiência pública na Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados, em Brasília. O deputado federal Bebeto, responsável por solicitar o debate, destacou a gravidade do cenário: “A BR-393 precisa voltar a ter condições mínimas de mobilidade e segurança. Não podemos aceitar o nível de abandono atual”.

Durante o encontro, representantes da indústria reforçaram o impacto econômico da crise. “A perda de fluidez da via afeta diretamente custos operacionais, tempo de deslocamento e a competitividade regional”, afirmou Márcio Fortes de Almeida, diretor da Firjan.

Segundo o DNIT, há previsão de investimentos de até R$ 13 milhões nos próximos meses para ações emergenciais. O órgão também promete reforço nas equipes de manutenção. “Nosso planejamento é que, ao longo de abril e maio, possamos recuperar os pontos críticos e devolver condições seguras de trafegabilidade”, afirmou o diretor-geral do DNIT, Fabrício Galvão.

Impactos na economia

A precariedade das rodovias impacta diretamente a economia regional. O Sul Fluminense concentra cerca de 8,5 mil indústrias e depende de uma malha viária eficiente para o escoamento da produção. A BR-393 é considerada um corredor logístico estratégico, ligando o estado do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a outras regiões do país.

Além do impacto econômico, o problema tem reflexos diretos na vida da população.      Durante a audiência em Brasília, a prefeita de Barra do Piraí, Katia Miki, fez um dos discursos mais contundentes sobre a situação. “Chegamos a um ponto insustentável e não podemos perder mais vidas na BR-393”, afirmou.

Segundo a prefeita, houve aumento significativo no número de acidentes graves nos últimos meses, incluindo mortes recentes. “Só na semana passada, foram dois óbitos no trecho do nosso município. Isso tornou a situação insuportável”, destacou.

Ela também chamou atenção para a rotina de risco enfrentada por motoristas. “Todos os dias são dezenas de pessoas à beira da estrada, com pneus estourados e veículos danificados. É uma realidade que não pode mais ser ignorada”, disse.

A prefeitura de Barra do Piraí ingressou com ação na Justiça Federal, que determinou ao DNIT a apresentação de um plano emergencial para a rodovia. Para Katia, a atuação precisa ocorrer em várias frentes. “Depois de meses tentando diálogo, a gente precisou agir. Nosso compromisso é com a vida das pessoas”, afirmou.

Pressão política

A pressão política também se intensificou na esfera estadual. O deputado Munir Neto (Solidariedade) afirmou que vem cobrando soluções desde o ano passado. “A situação piorou muito nas últimas semanas. Estamos tendo acidentes quase diários, alguns com vítimas fatais. A população não pode esperar”, disse.

Segundo ele, o DNIT garantiu reforço nas equipes e conclusão das obras emergenciais em até dois meses.

Já o deputado Jari Oliveira reforçou que o problema vai além de uma única rodovia. “O que vemos hoje são buracos, falta de sinalização e abandono. Estrada ruim mata, e não podemos tratar isso como algo normal”, afirmou.

Especialistas e autoridades apontam que o problema é estrutural. A malha rodoviária do Sul Fluminense sofre com falta de manutenção contínua, modelos de concessão ineficientes, baixo investimento público e aumento constante do fluxo de veículos pesados. Enquanto isso, a população segue enfrentando diariamente buracos, precariedade e insegurança.

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