Volta Redonda voltou a registrar o maior número de mulheres vítimas de violência no Sul Fluminense. Dados divulgados na quarta-feira (dia 1º) pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), na 21ª edição do Dossiê Mulher, mostram que o município concentra o maior número absoluto de registros em todas as modalidades de violência analisadas. O levantamento também confirma uma tendência observada em todo o estado do Rio de Janeiro: a violência psicológica permanece como a principal forma de agressão contra mulheres.
A divulgação do estudo ocorre no ano em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Além de apresentar os indicadores de violência de gênero, o Dossiê faz um alerta para a necessidade de enfrentar as causas estruturais desse tipo de crime, combatendo a naturalização de comportamentos machistas e responsabilizando também os autores das agressões.
Somadas, as regiões do Médio Paraíba e da Costa Verde contabilizaram, em 2025, 5.076 vítimas de violência psicológica, 3.155 de violência física, 3.003 de violência moral, 705 de violência sexual e 630 de violência patrimonial.
No Médio Paraíba foram registrados 3.740 casos de violência psicológica, 2.262 de violência física, 2.217 de violência moral, 489 de violência sexual e 462 de violência patrimonial. Na Costa Verde, o levantamento apontou 1.336 vítimas de violência psicológica, 893 de violência física, 786 de violência moral, 216 de violência sexual e 168 de violência patrimonial.
VR lidera os registros
Entre os municípios da região, Volta Redonda concentrou o maior número absoluto de vítimas em todas as modalidades analisadas pelo ISP. O município registrou 1.207 casos de violência psicológica, 950 de violência moral, 702 de violência física, 189 de violência patrimonial e 136 de violência sexual.
Na sequência aparecem Angra dos Reis, Barra Mansa, Resende e Barra do Piraí, municípios que também concentraram elevado número de registros ao longo de 2025. Para a delegada titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Volta Redonda, Juliana Montes, o crescimento dos registros não significa, necessariamente, que a violência esteja aumentando na mesma proporção.
“Quanto mais a mulher confia na polícia, mais ela denuncia”, afirma. Segundo a delegada, o fortalecimento da rede de proteção, a divulgação dos direitos das mulheres e a conscientização sobre as diferentes formas de violência têm contribuído para reduzir a subnotificação.
“A violência psicológica é o crime que mais cresce no Brasil e isso está muito ligado ao letramento de gênero. Muitas mulheres passaram a compreender que situações antes vistas como normais dentro de um relacionamento, como humilhações, controle, vigilância sobre mensagens, isolamento, imposição sobre a forma de vestir ou sobre a religião, na verdade são crimes”, explica a titular da Deam-VR.
Juliana Montes ressalta que levar informação à população também é uma estratégia de enfrentamento à violência doméstica. “Temos um trabalho muito grande a fazer. Precisamos divulgar o trabalho da polícia para transmitir confiança à população e, ao mesmo tempo, conscientizar as mulheres de que determinadas situações não devem ser toleradas.”
À frente da Deam desde outubro de 2023, ela afirma que o número de registros praticamente dobrou na unidade. “Desde que cheguei à delegacia, o número de registros praticamente dobrou. Isso está diretamente relacionado à divulgação do trabalho da Deam e às ações de orientação que realizamos.”
Segundo a delegada, o reflexo desse trabalho é percebido logo após palestras, entrevistas e ações educativas. “É muito comum que, nos dias seguintes às palestras ou às entrevistas, o número de registros aumente significativamente. Muitas mulheres chegam à delegacia dizendo que decidiram denunciar depois de me ouvirem falar sobre seus direitos. Isso mostra que levar informação às mulheres tem um impacto direto no encorajamento à denúncia.”
Estado registra três mulheres vítimas de violência por minuto
Em todo o Estado do Rio de Janeiro, o Dossiê Mulher contabilizou 159.041 meninas e mulheres vítimas de algum tipo de violência em 2025, média de três vítimas por minuto.
Pelo quinto ano consecutivo, a violência psicológica foi a modalidade mais registrada, com 59.742 vítimas – média de 164 casos por dia.
O estudo também revela o crescimento da violência praticada no ambiente virtual. Apenas em 2025, as violências psicológica e moral cometidas pela internet atingiram 5.970 mulheres, sendo 3.417 casos de violência psicológica online, número mais de 1.300% superior ao registrado em 2015.
Pela primeira vez, o Dossiê dedica um capítulo específico ao avanço de comunidades misóginas nas redes sociais, especialmente ligadas ao movimento conhecido como “redpill”, apontando como esses discursos contribuem para a disseminação do ódio contra as mulheres e para a naturalização da violência de gênero.
Outro dado preocupante é o crescimento do descumprimento das medidas protetivas de urgência. Em 2025 foram registrados 5.870 casos, o maior número da série histórica iniciada em 2018.
O levantamento mostra ainda que 105 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado. Em 83,8% dos casos, o crime ocorreu dentro da residência da vítima e, em mais da metade das ocorrências, o autor era o companheiro ou ex-companheiro. Mais de 70% das vítimas já haviam sofrido violência doméstica anteriormente, mas nunca haviam formalizado denúncia.
A violência sexual fez 8.681 vítimas em 2025, atingindo principalmente crianças e adolescentes. Quase metade das vítimas de estupro de vulnerável tinha até 11 anos de idade, e mais da metade dos autores era conhecida da vítima.














































