A Prefeitura de Volta Redonda terá de gastar mais R$ 719 mil para corrigir um problema estrutural na nova ligação viária entre os bairros Aero Clube e Aterrado, uma das principais obras do Plano de Mobilidade Urbana do município. Documentos oficiais obtidos pela Folha do Aço mostram que a Secretaria Municipal de Transporte e Mobilidade Urbana (STMU) abriu contratação para executar serviços de rebaixamento do greide da Avenida Ministro Salgado Filho, no bairro Aero Clube, após a constatação de que a altura da nova alça construída, que no projeto é chamada de “ponte”, é insuficiente para a passagem adequada de caminhões, ônibus e veículos de grande porte. A empresa contratada é a Luquip Terraplanagem.
O empreendimento começou a ser anunciado ainda em 2021 como solução definitiva para melhorar a mobilidade entre as regiões do Aterrado e Aero Clube. Cinco anos depois, porém, parte da estrutura precisará passar por uma intervenção corretiva antes mesmo da conclusão definitiva das obras.
O problema passou a chamar atenção de moradores, motoristas e técnicos ainda em 2023. Quem trafega pelo local percebeu alterações improvisadas no traçado da avenida para tentar minimizar o impacto da baixa altura sob a ponte. Em determinado período, uma das faixas no sentido Aero Clube-Niterói chegou a operar desviada para ampliar a área de passagem sob a estrutura.
Mesmo assim, o gabarito viário permaneceu abaixo do padrão normalmente adotado em obras modernas de mobilidade urbana. Em cidades de médio e grande porte, projetos dessa natureza costumam prever altura mínima próxima de 4,40 metros para garantir a circulação segura de veículos pesados e do transporte coletivo. No trecho em questão, medições apontam que a passagem chega a aproximadamente 3,20 metros em uma das faixas e cerca de 3,90 metros no ponto mais alto da estrutura.
Na prática, determinados veículos simplesmente não conseguem utilizar a via. Para evitar riscos de colisão, caminhões e carretas passaram a utilizar rotas alternativas, como a Beira-Rio, no bairro Barreira Cravo, evitando trafegar sob a nova alça.
A própria Prefeitura reconhece oficialmente o problema. Em documento técnico elaborado pela STMU, denominado Estudo Técnico Preliminar, a administração admite que a construção da nova “ponte” criou um “ponto crítico dificultando a circulação de veículos de carga e transporte coletivo”, tornando necessário o rebaixamento da pista.
O trecho do documento é direto: “Com a construção da nova ponte que liga os bairros Aterrado e Aero Clube, a Secretaria Municipal de Transporte e Mobilidade Urbana observou a existência de um ponto crítico dificultando a circulação de veículos de carga e transporte coletivo, sendo necessário o rebaixamento do greide.”
Em termos práticos, a Prefeitura terá de escavar e rebaixar a Avenida Ministro Salgado Filho para compensar uma limitação criada pela própria obra recém-construída.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que situações desse tipo normalmente são identificadas ainda na fase de elaboração do projeto executivo. Isso porque pontes, viadutos e alças de acesso dependem de levantamentos topográficos detalhados, definição adequada de gabarito viário e estudos prévios sobre o fluxo de veículos pesados.
Para engenheiros consultados pela Folha do Aço, o fato de o município precisar abrir uma nova contratação para corrigir a passagem inferior da ponte levanta questionamentos sobre eventual falha de concepção, erro de cálculo ou deficiência de compatibilização técnica entre o projeto da estrutura e o sistema viário existente.
Intervenção de impacto
O edital da licitação nº 90031/2026 confirma o objeto da contratação: “execução de obra de rebaixamento do greide e adequação viária no bairro Aero Clube”. O valor inicialmente estimado pela administração municipal para a obra corretiva chegava a R$ 996 mil. A contratação acabou fechada em R$ 719 mil, com prazo previsto de quatro meses para execução dos serviços.
Os documentos técnicos anexados ao processo mostram que a intervenção terá alto impacto urbano. O memorial descritivo prevê demolição do pavimento existente, escavação mecânica da avenida, retirada de grandes volumes de terra, reconstrução da drenagem pluvial, implantação de contenções, reconstrução de calçadas com acessibilidade e nova pavimentação asfáltica.
Também serão necessárias novas galerias de águas pluviais, bocas de lobo, poços de visita e adequações topográficas para compensar a diferença de nível provocada pelo rebaixamento da pista.
Plano de Mobilidade
A intervenção cria um cenário incomum em obras públicas: a necessidade de uma segunda obra para permitir o funcionamento adequado da primeira. Além do impacto financeiro, a situação expõe uma limitação operacional importante em uma das principais conexões viárias projetadas para desafogar o trânsito da cidade.
A obra integra o Plano de Mobilidade Urbana de Volta Redonda, pacote estimado em cerca de R$ 140 milhões e financiado parcialmente com recursos do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Entre as intervenções previstas estão a construção de um novo viaduto ligando Jardim Amália ao Aterrado, alças de acesso no Viaduto Heitor Leite Franco, revitalização da Avenida do Canal, nova ponte sobre o Rio Paraíba do Sul e reestruturação de corredores urbanos.
Até o momento, uma das poucas intervenções concluídas integralmente é o Viaduto Nossa Senhora do Amparo, no bairro Niterói.
No caso da ponte do Aero Clube, entretanto, a necessidade de rebaixar a avenida antes mesmo da conclusão definitiva da estrutura reforça críticas sobre planejamento, fiscalização e execução do projeto por parte do governo do prefeito Neto (PP). A obra, concebida para simbolizar modernização viária e avanço da mobilidade urbana, passa agora a representar um problema recorrente em grandes intervenções públicas brasileiras: a necessidade de gastar novamente para corrigir falhas que deveriam ter sido evitadas ainda na fase de projeto.
Em Volta Redonda, o custo da correção já está definido: R$ 719 mil pagos pelo contribuinte.
Nota da Folha do Aço: Embora o documento divulgado pela prefeitura trate a estrutura como “ponte”, o termo técnico correto é “viaduto”. A diferença está no tipo de obstáculo transposto: pontes são construídas sobre obstáculos naturais, como rios e lagos, enquanto viadutos passam sobre vias, avenidas, ferrovias ou vales. Neste caso, a própria descrição da obra indica que se trata de um viaduto – erro que passou despercebido até mesmo no material oficial divulgado pelo município.













































Gestão de obras devem ser designadas pela competência e não pela amizade.