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sexta-feira, abril 10, 2026
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Sequência de acidentes com mortes expõe falhas na BR-393 e pressiona DNIT por respostas

Uma série de acidentes registrados nos últimos dias na BR-393, no trecho que corta o Sul Fluminense, colocou novamente sob suspeita as condições de conservação da rodovia federal, chamada de Rodovia do Aço. Em menos de uma semana, foram ao menos dois mortos e vários feridos, casos que reacendem questionamentos sobre a manutenção da via, atualmente sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

Na terça-feira (dia 7), dois acidentes com vítimas fatais foram registrados em poucas horas. Pela manhã, um motociclista de 42 anos morreu no km 178, em Paraíba do Sul. À noite, outro motociclista perdeu a vida em um acidente no km 221, em Vassouras.

No primeiro caso, a vítima foi identificada como Luis Carlos Raimundo Júnior, subsecretário municipal de Tecnologia e Comunicação. Conhecido como Júnior, ele conduzia uma motocicleta Yamaha MT-03, que ficou completamente destruída.

Segundo informações apuradas pela reportagem, a moto foi atingida por um caminhão-baú de médio porte e arrastada por cerca de 20 metros. O motorista fugiu do local sem prestar socorro. Com o impacto, a motocicleta ficou prensada entre o caminhão e um Jeep Commander. O condutor do carro permaneceu no local e aguardou a chegada das autoridades.

Já à noite, a segunda vítima foi identificada como Leonardo Barbosa da Silva, de 48 anos, conhecido como “Leozinho da Vidraçaria”. O acidente ocorreu na pista sentido Barra do Piraí.

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, houve colisão frontal envolvendo a motocicleta, uma carreta do tipo cegonha e um caminhão. O motorista do caminhão, de 45 anos, relatou que a moto teria invadido a contramão, não sendo possível evitar o impacto. Ele foi submetido ao teste do bafômetro, que apresentou resultado negativo para ingestão de álcool.

Leonardo morava no bairro Campo Limpo, em Vassouras, e trabalhava como autônomo, segundo informações repassadas à Polícia Civil.

No dia seguinte, um novo acidente reforçou o cenário de risco. Uma carreta perdeu o controle ao tentar desviar de um buraco na pista, invadiu a contramão e atingiu dois carros no km 278, em Barra do Piraí. Sete pessoas ficaram feridas, entre elas uma criança. Segundo informações apuradas pela reportagem, a condição do asfalto pode ter contribuído para o acidente, hipótese que ainda depende de confirmação oficial.

Deterioração

Os episódios recentes se somam a uma percepção crescente entre motoristas e autoridades locais: a de que a BR-393 enfrenta um processo de deterioração desde o fim da concessão à iniciativa privada, em 2025. Desde então, relatos de buracos, falhas na sinalização e ausência de manutenção têm se tornado frequentes ao longo da via.

Apesar disso, o governo federal chegou a anunciar medidas para recuperação da rodovia. Em 16 de janeiro deste ano, o Ministério dos Transportes e o DNIT autorizaram o início dos serviços de manutenção de um trecho da BR-393, que passou a ser administrada pelo órgão em caráter emergencial após a caducidade do contrato de concessão anteriormente operado pela K-Infra.

O plano prevê intervenções em cerca de 100 quilômetros, entre os km 185,3 e 288,6, abrangendo municípios como Paraíba do Sul, Barra do Piraí, Vassouras e Volta Redonda, com investimentos estimados em aproximadamente R$ 17 milhões para melhorias no pavimento e na sinalização.

Outro contrato, voltado para o trecho entre os km 105 e 185 — que inclui Sapucaia, Três Rios e novamente Paraíba do Sul, foi assinado em outubro do ano passado. Para toda a extensão da rodovia, estão previstos serviços como recomposição do pavimento, tapa-buracos e limpeza do sistema de drenagem.

Na prática, porém, motoristas e autoridades locais afirmam que as melhorias ainda não se refletem nas condições reais da estrada.

Ação judicial

A situação já chegou ao Judiciário. A prefeita de Barra do Piraí, Katia Miki (Solidariedade), ingressou com uma ação civil pública na Justiça Federal, no último dia 6, solicitando que o DNIT seja obrigado a realizar intervenções emergenciais na rodovia. O processo tramita na 1ª Vara Federal do município.

Além da medida judicial, a prefeita afirma que pretende levar o tema a Brasília, em audiência na Comissão de Viação e Transportes, no próximo dia 14, em busca de providências mais rápidas por parte do governo federal.

“Desde que a rodovia ficou sem concessão, os problemas se intensificaram. Os municípios passaram a ser pressionados a assumir serviços que não são de sua responsabilidade, como atendimento a acidentes e suporte emergencial”, afirmou. Segundo ela, o impacto vai além da infraestrutura. “Quando mobilizamos uma ambulância para a rodovia, deixamos descoberto o atendimento dentro da cidade. Isso tem acontecido com frequência, porque os acidentes aumentaram.”

A sobrecarga relatada pelas prefeituras é um dos pontos que mais preocupam gestores locais. Sem estrutura para assumir funções típicas de uma rodovia federal, os municípios acabam atuando de forma improvisada diante de situações de emergência.

Quem utiliza a BR-393 no dia a dia relata um cenário de insegurança constante. O caminhoneiro José Carlos Pereira afirma que dirigir pela rodovia exige atenção redobrada, principalmente à noite. “Tem trecho que não dá para desviar. A gente vai na sorte, tentando não cair em buraco”, disse.

Moradores da região também relatam mudanças na rotina. O motorista Marcos Vinícius da Silva, que vive no distrito da Califórnia, em Barra do Piraí, diz que evita viajar com a família pela rodovia. “A gente vê acidente direto. Dá medo. Parece que é questão de tempo até acontecer com a gente”, afirmou.

Em Brasília

A pressão política também cresce. O deputado estadual Munir Neto (Solidariedade) afirma que vem cobrando providências desde o ano passado e que pretende se reunir com a direção do DNIT em Brasília na próxima semana. “As medidas não foram tomadas no ritmo necessário. As pessoas estão perdendo a vida”, disse.

Procurado, o DNIT informou, por meio de nota, que o trecho está contemplado por contrato de manutenção e que serviços já estão em andamento. O órgão cita intervenções como fresagem e recomposição do pavimento em pontos específicos para melhorar as condições de trafegabilidade e segurança.

A resposta, no entanto, não detalha prazos nem esclarece por que, mesmo com contratos firmados e recursos previstos, problemas estruturais seguem sendo apontados por usuários e autoridades locais. Enquanto isso, a sequência de acidentes mantém a rodovia no centro das preocupações na região.

Foto: Divulgação/PRF

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